PINTANDO A NATUREZA VIVA
Osman Said
Quer pintar uma árvore?
Escolha, antes da tela, aquele pedacinho de terra em que você gosta tanto de estar.
Ah! você não gosta de terra?! Então, procure alguma coisa morta para pintar.
Mas se quiser pintar uma árvore, com o viço das folhas, as cores das flores e a alma dos frutos, sinta com amor o pedacinho de terra, sinta seu cheiro e sua força germinativa e, de olhos fechados, transforme-se numa semente e plante-se nele.
Deixe-se alimentar pela química dos elementos, o fogo do sol, a frescura do ar, o segredo da água e a energia do solo. Perceba suas tenras raízes avançando entre os grãos de minérios e seus primeiros brotinhos colhendo gotículas de orvalho.
Sinta sua significância, mesmo assim pequenino, imbuído da certeza de crescer e ser maior que essas formigas gigantes, caracóis famintos e de que um dia essa espessa grama descortinará um imenso horizonte, acima de todas as montanhas e feras.
Avance, assim, em busca desse horizonte, com a robustez de um arbusto nas danças dos ventos.
Viva plenamente os grandes momentos de explosão de seus galhos frondosos, de seu corpo lenhoso envolvido por flores e de seus frutos alimentando a liberdade dos pássaros.
E quando você sentir o azul infinito roçar sua copa e sua sombra fizer repousar o operário cansado, deixe que uma parte de sua alma permaneça na seiva, traga um pouco da seiva em sua alma.
Abra os olhos e pinte a árvore com o carinho de um auto-retrato.
JORNAL DAS ARTES - JUL/94
JORNAL DA LIBERDADE DE COMUNICAÇÃO - AGO/94
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