sexta-feira, 26 de junho de 2009

TEXTO DO DIA



NA PORTA DA COZINHA IV
Osman Said

Dois anos se passaram. E lá continua, fruto eterno, o casulo solitário. Confesso que me apaixonei. Tinha visto a lagarta cortando pequenos pedaços dos galhos da caramboleira e pacientemente ir tecendo seu casulo. Fiquei maravilhado, quando a vi, já dentro do casulo, caminhando da caramboleira para a jabuticabeira e desta para a pitangueira, em caminhadas rápidas entre os galhos, descendo e subindo os caules . Eu, na minha ignorância, nunca pensei que casulo mudasse de lugar. E ela fez do minúsculo pomar, seu reino. E desbravou e reinou nessas caminhadas, durante longos treze meses. Às vezes, colocava apenas alguns milímetros de sua cabeça para fora, como se dissesse: "Olá, ainda estou aqui!" - tentando minimizar minha ansiedade. Também pude observar o último passeio da lagarta. Estava enorme a lagarta, preta e amarela. Exuberante. Apenas metade de seu corpo caminhava pela parede, enquanto o restante continuava abrigado. Caminhava o casulo pela parede. Deixando por momentos seu habitat, estaria dando seu último passeio para visualizar as árvores ao longe e escolher o galho mais bonito, onde adomeceria e acordaria como Cinderela, já que futura borboleta ela era. Certamente, ela não contava com o outono tão seco e quente que impossibilitou a metamorfose. E eu, certamente, não soube o que fazer a não ser sofrer pela espera. Depois desse último passeio, nunca mais a vi. Eu esperei meses após meses pelas asas. Muitos meses pelas cores e pela forma. Meses e meses pela liberdade.Dois anos se passaram e lá continua o casulo. E lá ficará o casulo. Registro de algo que jamais poderei conhecer.

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